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Princesa Desconhecida sem retrato | Rosa Alice Branca



Balthus





Princesa Desconhecida sem retrato
                                      
                                                                                               a Sophia de Mello Breyner

O custo da perfeição não tem idade
mas traz cansaço e vidas dobradas,
dizes,
para o tornozelo e o pescoço esguio
não foram sete dias, foram séculos
de história e um estilhaço no horizonte
para salvar da beleza o teu corpo
e o seu exílio, dizes,
e eu escrevo nas ondas com que criaste o mar,
a forma pura e límpida da búzio
por onde entram fadas, conchas ao entardecer.
Mas a princesa mora para lá do tempo
onde o ar é imóvel nos seus cabelos,
dizes
quantos escravos moldaram rosto a rosto
a simplicidade, quanto inútil for a morte
e a vida ajoelhada. Não fosse o mar
salpicar-te a face toda com palavras
não dirias pátria de voz cheia,
não terias acordado com um beijo de cravo
na lapela aberta do poema.

Rosa Alice Branco
O Mundo Não Acaba No Frio dos Teus Ossos. 2009, edições Quasi

Sophia de Mello Breyner Andresen


ESPERO

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner Andresen


AUSÊNCIA

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Horizonte vazio | Sophia M. B. Andresen




Horizonte vazio

Horizonte vazio em que nada resta
Dessa fabulosa festa
Que um dia te iluminou.

As tuas linhas outrora foram fundas e vastas,
Mas hoje estão vazias e gastas
E foi o meu desejo que as gastou.

Era do pinhal verde que descia
A noite bailando em silenciosos passos,
E naquele pedaço de mar ao longe ardia
O chanmamento infinito dos espaços.

Nos areais cantava a claridade,
E cada pinheiro continha
No irreprimível subir da sua linha
A explicação de toda a heroicidade.

Horizonte vazio, esqueleto do meu sonho,
Árvore morta sem fruto,
Em teu redor deponho
A solidão, o caos e o luto.

Sophia M. B. Andresen