Preparação para o teste de avaliação: Não És Tu, Almeida Garrett


 [ilustração Rachel Caiano]

[preparação para o teste de avaliação]

Não És Tu

Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume ,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu... ai!, não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.

Almeida Garrett

1. O poema organiza-se na base da oposição entre passado e presente.
1.1. Faz a caracterização da mulher vista no passado e vista no presente.
12. Encontra uma palavra para caracterizar cada visão.
1.3. Delimita os momentos em que o texto se estrutura, justificando a divisão.
1.4. Atenta nos verbos principais. Explica o valor do imperfeito, do pretérito perfeito e do presente.

2. Há uma diferença entre a imagem do tu no passado e no presente.
2.1. Como se justifica essa diferença?
2.2. Comprova que o tipo de conhecimento utilizado pelo eu para conhecer o tu é importante para detectar as diferenças.

3. Como nos poemas já analisados, a mulher aparece sempre idealizada.
3.1. Encontra no texto palavras ou expressões que comprovem essa idealização.
3.2. Que figura de estilo suporta a idealização da mulher?
4. Há no poema várias figuras de estilo que geram a expressividade da linguagem.
4.1. Identifica  os segmentos de discurso que  efectivam a anáfora, a antítese, a comparação e a sinestesia.
4.2. Explica o sentido e a expressividade dessas figuras de estilo.

5. A oposição fogo/luz é recorrente na poesia de Garrett.
5.1. Para que tipos de amor apontam esses dois vocábulos?
5.2. Qual é o amor considerado mais perfeito? Porquê?

6. A parateatralidade ou a tendência para a oralidade é urna das características do discurso de Garrett.
 6.1. Indica os elementos que realizam a parateatralidade, neste texto.

7. Caracteriza, finalmente, a mulher na base da oposição “ter coração” / “não ter coração”.
 
Orientações 

Tema: desilusão amorosa.
Assunto: tentativa da posse do Ideal através de uma visão, verificando no fim  que a mulher presente não o corresponde no amor.

 Proposta de delimitação:

1ª parte - estrofes 1 – 4: descrição da visão, sonho, mulher, amor idealizado;
2ª parte - estrofe 5: a mulher presente não é a da sua visão / idealização. (adversativa "mas")

Estado de espírito do Eu:
- sofrimento provocado pela desilusão;
- desejo de regressar ao passado, em que vivia um amor espiritual, uma época de sonho e paz, pois, no presente, está a viver um amor carnal que o faz infeliz;
- sonhador, iludido, perdido pela ânsia de amar e ser amado;
- desiludido, impotente pela não correspondência do seu amor;
-  concepção neoplatónica do amor – frustração por não possuir o Ideal;

Toda a ilusão se desfez (v. 26)
Não és a mesma visão (v. 28)
Quando eu sonhava de amor, / Quando em sonhos me perdi (vv. 5–6)
(...) véu que lhe envolvia (v. 11)
(...) beleza (v. 12)
(...) não seduz (v. 16)
Não era fogo, era luz (v. 17)
(...) rosas celestes / Rosas brancas, puras, finas / Viçosas como boninas /
/ Singelas sem ser agrestes (vv. 22-24)

Passado - Não era fogo, era luz / que mandava ao coração

Fogo – paixão
Luz – razão

AMOR ESPIRITUAL

 Presente - Não és a mesma visão, /Que essa tinha coração/ essa tinha coração – amor espiritual transformado em amor carnal (a mulher mudou e a ilusão desfez-se)

A descrição da mulher / visão faz-se:
 -  pela aproximação aos sentidos:

visão (vv. 1-4, 7, 19)
audição (vv. 13-16)
olfacto (vv. 20-21)
pela comparação com a mulher real.

O tipo de relação EU – TU:
dependência;
submissão do EU ao TU, pois a mulher exerce um poder tão grande que o EU se sente totalmente dominado, mesmo com uma situação de desilusão.

Tempos verbais:
            oposições:

Passado / Presente
Amor Espiritual / Amor Carnal
Razão / Paixão
Sonho / realidade

Pretérito Imperfeito: era, tinha, corava, ...
-  mostra a situação amorosa do passado, em que se encontrava feliz e iludido com a beleza da mulher amada;

-  Presente Indicativo – descreve a situação actual em que toda a ilusão se
desfez em que só sente paixão e amor carnal. Desejando, pois, regressar
ao amor espiritual.

Recursos estilísticos:
- sinestesia: Que lhe adoçava a beleza

Rosas brancas, puras, finas / Viçosas
- hipérbole: Nos olhos tinha esse lume
-  assíndeto: ausência da conjunção coordenativa copulativa (vv. 1-3, 19-24)
- adjectivação múltipla: altivo (v. 7), pensativo (v. 8), ingénuo, vulgar (v. 14), celestes (v. 21), brancas, puras, finas / Viçosas (vv. 22-23), singelas, agrestes (v. 24), 
- comparação: Como um véu (v. 11), Viçosas como boninas (v. 23), 
- metáfora: sonhava de amor (v. 5, em sonhos me perdi (v. 6), Não era fogo, era luz / Que mandava ao coração (vv. 17-18), lume (v. 19), perfume (v. 20), Um cheiro a rosas celestes / (...) agrestes (vv. 21-24)
(associação do perfume da mulher ao perfume das rosas)
- interjeição: última estrofe; ai! (v. 25)
- anáfora: Quando (vv. 5-6) não és (vv. 27-28), Era assim (vv. 1-13)
- antítese: fogo / luz (v. 17)
- repetição: não és (v. 25)
, tinha (vv. 29-30),  assim (vv. 1, 7, 13)
- enumeração: vv. 7-9, 13-18
 

Análise formal:
--cinco sextilhas de 6 e 7 sílabas
- esquema rimático: a a b c b c
-  rima: emparelhada e cruzada
-  rima aguda: estrofes ímpares
-  rima grave: estrofes pares

Um comentário:

biaC disse...

Boa noite, tenho como apresentação oral a apreciaçao do poema SAUDADES de Almeida Garrett. Gostaria de saber se pode fazer uma apreciação desse poema.
obrigada!