Existencialismo & Aparição


O existencialismo fundamenta-se na obra de Nietzsche, filósofo do séc. XIX.
Nietzsche insurge-se contra a civilização burguesa voltada para o bem-estar material , rejeitando todos os seus valores, proclamando a morte de Deus e valorizando o sentido terreno da existência.
Nietzsche criou o conceito de super-homem. O homem que ocupa o lugar de Deus.
A ideia do homem ser o seu próprio Deus, coincide a afirmação patente no preâmbulo de
Aparição. Na pg. 11, o narrador afirma:

“Conheço-me o deus que recriou o mundo., o transformou, mora-me a infinidade de quantos sonhos, ideias, memórias, realizei em mim um prodígio de invenções , descobertas, que só eu sei, recriei à minha imagem tanta coisa bela e inverosímil”

A filosofia de
Nietzsche foi desenvolvida por Sartre e Camus.
Sartre desenvolve as ideias de Nietzsche e conclui que, como não existe uma razão suprema - um deus , – a vida humana é inútil, absurda e sem esperança. Sartre afirma que:

“Se Deus não existe, o homem está condenado a ser livre.”

A liberdade de optar coloca o homem face a uma multiplicidade de caminhos: é uma responsabilidade angustiante pois sendo o homem livre de escolher, também as consequências dessa opção recaem sobre ele.

EXISTENCIALISMO

Camus expressa esta ideia através do mito de Sísifo.

Sísifo, pai de Ulisses, foi, segundo a tradição, um mortal sem escrúpulos, tendo vivido de roubos e assassínios. Por isso, uma vez descido ao Hades, foi condenado pelos Juízes dos Infernos a empurrar sem descanso um enorme rochedo até ao cume de uma montanha. Sísifo, porém, nunca conseguiu realizar esta tarefa pois mal chegava ao cimo da montanha a enorme pedra, em consequência do seu peso, caía de novo. Os deuses condenaram Sísifo ao castigo mais terrível: o trabalho inútil e sem esperança.

A tragicidade deste mito advém da consciência do seu herói. Se acaso Sísifo tivesse esperança ,o efeito da tortura seria minimizado.
Uma característica muito comum a todas as filosofias da existência é o facto de repousarem numa vivência muito pessoal e portanto variável de filósofo para filósofo. A existência é sempre individual, singular, subjectiva.
A angústia e a inquietação existencialista perpassam de um modo quase obsessivo para a figura de Alberto Soares.

4 comentários:

azuki disse...

Penso que o Existencialismo de VF será menos canónico, pois que ele acabou por entrar em ruptura com o “pai”, Sartre, e a sua bíblia, “L’Être et le Néant”. VF repudia esses exercícios de inteligência desligados da realidade, tendo mesmo dito:

“Amigo Sartre mete uma enxada nas unhas aos teus pederastas, aos teus vadios de café, põe-me essa Ivitch a lavar roupa, a roçar o soalho da casa, dá-lhes a todos, para roerem, um corno da realidade. E conta-nos depois.”

Paula Cruz disse...

olá,

As filosofias da existência são de facto variáveis e, com efeito, VF não é um existencialista ortodoxo.
Contudo, devemos ter em atenção a evolução da sua obra. Os livros últimos - Para Sempre, Na tua Face, Em nome da Terra - revelam, esses, sim um maior afastamento das ideias de Sartre e a um construção de um caminho próprio.
Com o romance Mudança (1949)e, principalmente, com Aparição a problemática existencialista bebida em Sartre é ainda muito próxima da do mestre.
É claro que a dimensão social "espreita" aqui e ali, mais que mão seja pelo Chico.

Paula

azuki disse...

Olá, Paula.

Sim, já tinha lido que há uma evolução na sua forma de encarar a existência, logo, na sua obra, cuja fronteira se situaria no livro “Mudança”.

“Para Sempre”, meu terceiro livro do autor, conquistou-me. Estou presa às palavras aflitas de um homem que se sente velho, só, cansado, um homem que se questiona (como sempre fez, aliás), mas desta feita sem a vitalidade de um futuro ainda por escrever. Um livro que é, também, uma longa carta de amor a Sandra, com passagens que comovem e embalam. Também é interessante perceber, neste livro que surge vinte e quatro anos após Aparição, como Vergílio Ferreira aprimorou a prosa, conseguindo adaptá-la à modernidade, escrevendo num estilo que é actual, elegante, sofisticado.

Um livro povoado de destroços, despojos, desespero. De solidão, cansaço, saudade. De emoção e de afecto. Lindo, maravilhoso, envolvente, tocante. Tão poético, tão belo, tão triste. Um livro verdadeiramente encantador.

Sílvia

azuki disse...

Uma correcção ao meu comentário anterior: vi, ontem, no programa da rtp2, que "Mudança" (penso que publicado em 1949) terá sido o primeiro dos livros que abordam mais enfaticamente a problemática existencialista (e não, como eu tinha referido, a fronteira que marcaria o início da "construção de um caminho próprio")