Feminine no Teatro Nacional São João
“Quatro amigos encontram-se num ringue ou recinto para jogar à bola, e ali vão-se provocando e desafiando, pregando partidas e contando histórias.” Assim descrevia Paulo Ribeiro, em entrevista, o seu Masculine (2007), coreografia interpretada por três bailarinos e um actor que tomava o Pessoa da vida-de-todos-os-dias como ponto de partida e referência central. Interpretado por quatro bailarinas e uma actriz, Feminine é o lado B da aventura pessoana do coreógrafo, espectáculo onde a bola de futebol dá lugar aos saltos altos. Passagens do Livro do Desassossego – obra que há anos não abandona a mesa-de-cabeceira de Paulo Ribeiro – e de outros textos de Pessoa desencadeiam movimentos e palavras num quinteto feminino de excepção, formado após uma audição em que participaram cerca de 250 candidatas das mais diversas partes do globo. Estreia absoluta de um espectáculo cujo criador é bem conhecido do público do TNSJ, Feminine abre a temporada 2008/2009 com sarcasmo, sentido de humor, volúpia, sensualidade – e outras subtilezas femininas." aquiJoaquim Castro Caldas (1956 - 2008)

Vão-se embora palavras
Deixem-me ali à esquina
Amem e façam-se à vida
Não temam a morte voem
Sabem que são minhas
Para lá dessas fronteiras
Que desapertam as rimas
Com poemas ou bombas
Fucem apanhem boleias
Só vos deixei preparadas
Para os cornos dos poetas
Sem Sombra, Adília Lopes

(imagem daqui)
quatro poemas de Paulo Leminski

coração
PRA CIMA
escrito em baixo
FRÁGIL
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quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência
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já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
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moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia
vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia
Paulo Leminski
Nos trinta anos da morte de Ruy Belo

Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração
Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu sei que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum
entre inúmeros peixes das
profundidades
e os corpos de incontáveis
pescadores
como o jovem lourenço
são miguel
que aqui se despediu dessa vida
de aí
a cinco salvo erro de janeiro de
sessenta e cinco".
O lenço preto, de Sara Monteiro

O lenço preto
O tempo passou, a pessoa que lia estava a acabar. Nada lhe ocorrera, entretanto. Nada! Começou a suar frio. O escritor terminara. Bateram palmas. Olharam-na. Engoliu em seco e levantou-se. Calor e frio invadiam-na, as pernas tremiam-lhe, queria fugir. Retirou do pescoço o lenço que a incomodava com um gesto tão brusco que este lhe escapou da mão e um corvo voou no espaço por cima das cabeças dos presentes.
Voltou e poisou no seu braço. Sacudiu-o, horrorizada; uma nuvem preta subiu, subiu e espalhou-se: chuva, relâmpagos, trovões desabaram sobre a sala. As pessoas corriam e gritavam, tentando proteger-se.
Olhou os estragos provocados e o rosto estupefacto dos convidados. Agora sim, queria fugir! Salva-me! sussurrou. E a nuvem deslizou, sedosa, para a sua mão, abriu um buraco no chão, um saco preto fundo para onde ela saltou, desaparecendo sem dar explicações.
Sara Monteiro
in revista Minguante, nº11
Livrarias # 2 El Ateneo, Buenos Aires
Livrarias # 1

A livraria Selexyz Dominicanen foi instalada na uma antiga igreja preservando a arquitectura original, tanto externamente como internamente.
O local é uma antiga igreja Dominicana de 800 anos de idade, e esta livraria diz que possui o maior acervo de livros em inglês em Maastricht, uma das mais velhas cidades do país. Um dos principais desafios aos arquitetos Merkx + Girod foi manter a fidelidade do charme presente ali naquele local e também obtendo amplo espaço comercial, visto que a igreja tem uma área em planta de apenas 750m2, e a área requerida era de 1200m2, sendo assim a proposta foi de usar do grande pé direito ali presente, criando em estruturas metálicas, os pavimentos de livros e grandes estantes que abrigariam a literatura ali a venda. O acesso a estes níveis se dá por meio de escadas e elevadores, levando os clientes aos ‘céus”.
«Varina», de Joana Vasconcelos



«Varina» é o título da instalação criada pela artista Joana Vasconcelos no âmbito do Imaginarius - Festival Internacional de Teatro de Rua de Santa Maria da Feira.
«É uma homenagem às mulheres do povo e cria uma dinâmica de intercâmbio com a paisagem envolvente, redefinindo e estimulando as tradicionais relações entre a arte e o tecido social, em clara comunhão com o espectro paisagístico - arquitectónico e natural - envolvente», afirmou à Agência Lusa Joana Vasconcelos.
A colcha com 35 por 15 metros pretende afirmar a vocação metropolitana do Imaginarius, que decorreu em Maio. (IOL Diário)
Manoel de Oliveira, em Serralves
ANIKI-BOBÓ (1942) é a primeira longa metragem de ficção, de Manoel de Oliveira.
Uma arquitecta de culto vai projectar o pólo de Serralves em Matosinhos: Kazuyo Sejima
Mas foi nele que o júri do concurso internacional aberto em Maio de 2007 mais confiou: a proposta da Sanaa (Sejima and Nishizawa and Associates) ficou em primeiro lugar, à frente de concorrentes como os franceses Lacaton e Vassal, o britânico David Chipperfield, a dupla Matthias Sauerbruch/Louisa Hutton, o português Eduardo Souto Moura e o atelier suíço Degelo Architekten. A decisão foi comunicada anteontem ao conselho de administração.
O pólo que a Fundação de Serralves pretende abrir até 2010 vai acumular as funções de depósito de obras de arte - respondendo à necessidade que o Museu de Arte Contemporânea de Serralves tem actualmente de ampliar o espaço de guardaria -, oficina de conservação de referência e centro de exposições. Faz parte do programa, que prevê ainda um núcleo de indústrias criativas e um espaço destinado à preservação da memória da Efanor e da indústria têxtil.
Também faz parte do programa que o novo edifício "constitua um marco da arquitectura contemporânea". Os projectos de Kazuyo Sejima têm essa facilidade: transformam-se rapidamente em objectos de culto. Aconteceu em Nova Iorque (com o New Museum of Contemporary Art da Bowery) e em Tóquio (com a loja Christian Dior da Omotesando), mas também já aconteceu aqui perto, com a ampliação do Instituto Valenciano de Arte Moderna (a nova pele do edifício estará pronta em 2011).
Agora vai acontecer a dois quilómetros do Porto, com um projecto que quer fazer muitas coisas pela zona envolvente (pretende-se que promova a requalificação urbana e arquitectónica daquele quarteirão da Senhora da Hora, contribuindo para a estruturação de uma antiga zona industrial que começa a transformar-se agora num bairro residencial e de serviços), pelo ambiente (o novo edifício deve preocupar-se com a redução do consumo de energia e o tratamento e escoamento sustentáveis dos resíduos sólidos) e pela criação de emprego qualificado através da aposta em serviços "de alto valor acrescentado" na área do inventário, da fotografia, do vídeo, da conservação e do restauro, da embalagem e da montagem de exposições.
Quaisquer que sejam as valências do edifício, pode acontecer o mesmo que com a Casa da Música de Rem Koolhaas: um efeito Guggenheim, ainda que a outra escala. "A Sanaa é a firma que todas as outras firmas [de arquitectura] que entrevistámos admiram. Em todos os ateliers onde estivemos havia livros da Sanaa nas prateleiras", disse Lisa Phillips, directora do New Museum, ao New York Times. ( Inês Nadais, 16.07.2008,, Publico)
Varina, de Joana Vasconcelos, na Ponte D. Luís



Joana Vasconcelos instala obra na Ponte D. Luís “Varina” é o título da instalação da artista plástica Joana Vasconcelos, que pelas 16h00 de sábado, será oficialmente inaugurada na Ponte D. Luís, no Porto.
"Varina" é o título da instalação da artista plástica Joana Vasconcelos, que pelas 16h00 de sábado, dia 19 de Julho, será oficialmente inaugurada na Ponte D. Luís, no Porto. Num texto da autoria de Lúcio Moura, divulgado a propósito deste acontecimento, explica-se: "Dando continuidade ao projecto artístico Donzela, concebido no âmbito da edição de 2007 do Imaginarius - Festival Internacional de Rua de Santa Maria da Feira -, a artista Joana Vasconcelos, inspirada na ideia de "Procissão", propõe a realização da intervenção Varina na Ponte D. Luís, no Porto".
E acrescenta-se: "Varina, à semelhança de Donzela, compreendeu a produção de uma colcha monumental, com cerca de 35x15 metros, em croché, elaborada artesanalmente, com a colaboração activa da população feminina local, destinada a ser suspensa na Ponte D. Luís I".
Diamantes, de Gonçalo M. Tavares
-Diamantes, diamantes, diamantes! Há anos que é só isto - queixava-se o produtor."
in O Senhor Bretch, de Gonçalo M. Tavares
Visto das nuvens, de Catarina Nunes de Almeida
o mundo parece um herbário.
Sem pernas sem cheiros
sem homens que digam
eu conheço este cheiro –
silêncio que esmaga o silêncio.
A terra demora muito tempo,
ocupa o olhar todo, o nariz todo.
Das nuvens uma flor não é uma flor.
Duas flores não são duas flores.
Das nuvens uma plantação de flores é apenas
um rectângulo amarelo
onde podem existir girassóis
guarda-sóis ventoinhas –
o que é que importa se por lá
também correm crianças?
um poema de Wislawa Szymborska no seu aniversário
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